MORREU O ARQUITECTO DA MODERNIDADE
Fernando Távora
Cláudia Luís *
Desapareceu um dos mais importantes pensadores da arquitectura portuguesa, mestre de Siza e de Souto de Moura Funeral sai amanhã de Guimarães para o Prado do Repouso
Foi um dos mestres da arquitectura moderna portuguesa, firmou-se como referência incontornável da Escola do Porto e pioneiro no processo de reabilitação do património. Deu a volta ao Mundo com 400 euros no bolso e cometeu a proeza de colocar Portugal na vanguarda europeia. Fernando Távora, o arquitecto, o pensador e o pedagogo, faleceu, ontem, aos 82 anos, vítima de doença prolongada.
O autor da Quinta da Conceição, em Leça da Palmeira, nasceu no Porto, no dia 25 de Agosto de 1923, mas dizia-se "um portuense não castiço e não desencantado", porque nunca chegou a encantar-se de facto. Como explicou ao JN, em 2003, o sentimento devia-se, em parte, às raízes que dispersava por Águeda e Guimarães, a cidade cujo centro histórico recuperou e que, hoje, acolhe o seu corpo, na Casa da Covilhã. Amanhã, pelas 10 horas partirá em direcção ao cemitério de Prado do Repouso, no Porto, onde será cremado.
O pai que se dizia filho
"Fernando Távora é uma figura basilar da instituição que ficaria conhecida como a Escola do Porto, a seguir a Carlos Ramos", considera João Afonso, secretário-geral da Ordem dos Arquitectos. "É um dos pais fundadores da arquitectura moderna portuguesa. Um homem - segundo Helena Roseta - que não deixa apenas a obra, mas essa Escola, com todo o prestígio nacional e internacional inerente". Pai? Em vida, Fernando Távora recusava o rótulo - "Quando muito, serei filho", dizia.
O "filho" que na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) se licenciou e leccionou ao longo de quase meio século, abrindo caminho para o fenómeno Siza Vieira, seu aluno. Siza classificou a sua pedagogia como "aversa a modelos" e a favor de "respostas sistemáticas".
Aliás, para João Afonso, "Távora deixa, efectivamente, obras relevantes (ver página 41), mas foi, sobretudo, um pensador e um pedagogo".
Contudo, o seu legado - marcado por obras como a recuperação da Casa dos 24, do Museu Nacional Soares dos Reis ou do Convento das Irmãs Franciscanas de Calais - reflecte um dos seus mais importantes princípios teóricos. Como recorda Manuel Correia Fernandes, ex-director da FAUP, "ele dizia que mais importante do que conservar património é construir património".
Helena Roseta não tem dúvidas quanto a esta vertente da sua carreira "Ele foi pioneiro na reabilitação do património, tema muito em voga nos dias de hoje, mas que ele defendeu desde sempre". Aliás, a bastonária da Ordem dos Arquitectos chega mesmo a declarar que "todos os arquitectos portugueses têm uma dívida para com Távora: o amor pelo território e pelo património".
Na perspectiva do actual director da FAUP, Domingos Tavares, "Távora é, além de uma memória na arquitectura de Portugal e do Mundo, uma referência actual na nossa prática profissional".
Eduardo Souto de Moura, que também foi alvo da pedagogia de Fernando Távora (ver página 41), salienta "a lucidez e a perspicácia que teve para entender o futuro da arquitectura portuguesa" e identifica-o enquanto "protagonista da arquitectura moderna". Isto, porque, "pela primeira vez na história da arquitectura nacional, ele não adaptou importações da escola europeia; ele fez propostas. Isso não é normal em Portugal".
Muito desse trabalho nasceu das inúmeras conferências que protagonizou a nível internacional, mas, surgiu, essencialmente, da viagem que fez à volta do Mundo, no final da Segunda Guerra Mundial. "Foi uma emoção impressionante. Quando regressei, vinha carregado de contactos", disse, o próprio, ao JN há dois anos.
"Muito culto e generoso"
Em privado, Távora dedicava-se, sobretudo, ao coleccionismo, "uma das obsessões que herdei do meu pai", dizia. Chegou a desembolsar 10 mil euros por uma revista que lhe faltava e orgulhava-se de conservar a primeira edição de "Mensagem", de Fernando Pessoa.
De voz embargada, o arquitecto Correia Fernandes, que se prepara "para viver com a obra que ele deixou", recorda "uma pessoa muito generosa", com aquela humildade peculiar de quem não passou indiferente pelo Mundo, sendo, na verdade, pouco mundano. "Não dou grande importância [ao vestuário]. A minha mulher diz que me visto mal...", confessou em tempos Távora.
Ainda que tenha privado raras vezes com o Mestre, João Afonso sublinha que, quando o conheceu, sentiu-se imediatamente "fascinado pela sua cultura e sentido de humor algo irónico, refinado e acutilante".
"Muito culto", reafirma o arquitecto Miguel Frasão, um dos muitos amigos de Távora que, ontem ao fim da tarde, passou pela Casa da Covilhã, em Guimarães, pare dele se despedir. Esta foi, de resto, a casa que o pai lhe deixou e que o acolheu nos últimos tempos de vida.
"Há figuras que parecem ser eternas" - diz Helena Roseta. "Fernando Távora é uma dessas figuras". Eterno.
*com Catarina Ferreira e Liliana Costa
A História vale na medida em que pode resolver os problemas do presente e na medida em que se torna um auxiliar e não uma obsessão