Fernando Távora arquitecto
O mestre da nossa arquitectura
O corpo do decano da arquitectura portuguesa (1923-2005), que está em câmara ardente na capela da casa de família em Guimarães, vai ser cremado, amanhã, no cemitério do Prado do Repouso, no Porto
fernando madaíl *
Arquivo DN-Hernâni Pereira
Olhar sereno e profundo, gestos tão delicados como firmes, morreu ontem, no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, o construtor que descendia da linhagem dos Távoras e marcou a arquitectura portuguesa contemporânea logo na Casa de Ofir (1957-58), essa pequena vivenda onde se aliavam a mais moderna das linguagens com a mais vernácula identidade nacional.
A síntese entre estes aparentes contrastes marcou os grandes nomes da Escola do Porto, da forma delicada de implantar a peça num território específico à criteriosa escolha dos materiais que se misturam em cada obra. "A erudição de Fernando Távora", como escreveu Michel Toussaint, "foi-se manifestando ao longo da casa em Ofir."
Fidalgo e cosmopolita, Fernando Luís Cardoso Menezes de Tavares e Távora (recuperou a assinatura de família proscrita por D. José) contactou com a elite dos arquitectos europeus, como membro do CIAM (Congresso Internacional da Arquitectura Moderna), que se realizou de 1928 a 1956. E foi trazendo para Portugal todas as novidades teóricas do seu tempo, das concepções de Corbusier (na leitura de Sérgio Fernandes, as aberturas a "esmo" nas paredes da Casa de Ofir podem ser comparadas com as da capela de Ronchamp) às de Frank Lloyd Wright (a introdução do living room na vivenda de Ribeiro da Silva), antes de proceder à revisão crítica do Movimento Moderno.
Mas o requintado autor da Quinta da Conceição (Matosinhos) ou da Escola Primária do Cedro (Gaia) introduziria entre nós, ainda na década de 50, uma reflexão sobre o papel social da arquitectura, contrariando o discurso do regime. Nesta linha, não só viria a traçar o Bairro de Ramalde, no Porto, como estaria no Comissariado de Renovação Urbana da Ribeira/Barredo, na mesma cidade, que serviria de base para o SAAL (Serviço Ambulatório de Apoio Local), lançado por Nuno Portas quando era secretário de Estado da Habitação e Urbanismo do I Governo Provisório. Nesse "25 de Abril dos arquitectos" liderou as brigadas da Prelada e Miragaia.
centenas de projectos. Antes, porém, tinha sido um dos chefes de brigada do célebre Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa (publicado em 1961 e reeditado em 2004), em que se demonstrava que a construção vernácula portuguesa estava mais próxima das concepções "malditas" da Carta de Atenas do que do estilo "português suave" grato ao regime. Seria, de resto, o próprio Távora a mostrar os resultados do inquérito a Salazar. O ditador, então, estranhou a juventude daquele arquitecto; o arquitecto lembraria, anos mais tarde, que o ditador tinha umas bonitas mãos.
A obra que foi edificando em Portugal - uma parte dos 300 projectos que desenhou - é, por si só, exemplar das concepções que defendia, da sensibilidade na conjugação de volumes entre o mercado da Feira e o castelo da cidade à forma como implantou o anfiteatro de Direito no Pátio das Escolas da Universidade de Coimbra. E, no entanto, já no fim da carreira, via a ignorância dominante a criticar alguns dos seus riscos, como a intervenção na Praça 8 de Maio, em Coimbra, com que realçou a Igreja de Santa Cruz, ou a Casa dos 24, no Porto, que restabeleceu o diálogo original da envolvente com a Sé.
De resto, a sageza fazia-o conter o traço na Pousada de Santa Marinha, em Guimarães, ou no Palácio do Freixo, no Porto, ou expandi-lo com inteira liberdade no edifício do Turismo de Aveiro ou no departamento de Electrotecnia da Universidade de Coimbra. Uma sensatez que lhe permitia distinguir o que se podia fazer no plano de expansão de Macau ou na recuperação do Centro Histórico de Guimarães.
o Discípulo siza. Mas, acima de tudo, talvez o papel mais importante de Fernando Távora seja mesmo o de mestre. Não seria por mero acaso que foi ele que descobriu o génio num aluno chamado Álvaro Siza Vieira, acabando por o convidar para trabalhar no seu atelier.
"Foi a primeira pessoa que, dentro da escola, reconheceu em mim algum talento, porque, até ter sido seu aluno e até ter sido o melhor classificado, obtive classificações muito sofríveis", lembrará Siza, na sua última aula (e numa das últimas aparições públicas do seu mestre e amigo), dada no anfiteatro da Faculdade de Arquitectura do Porto que ganhou o nome de Fernando Távora. A admiração era, de resto, mútua. Távora fez o projecto Casa sobre o Mar, em 1952, no concurso para obtenção do diploma de arquitecto, e obteve 19 valores. Depois disso, admitia, "só o Siza é que tirou 20 - mas ele era melhor do que eu".
Consolidada a Escola do Porto, que se foi revendo no seu "discurso iniciático e sorridente" (Alexandre Alves Costa), foi um dos impulsionadores do Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra, onde seria doutorado honoris causa, a máxima distinção universitária, que também lhe foi concedida pelo Instituto Universitário de Arquitectura de Veneza.
viagens e colecções. O refinado autor do texto O Problema da Casa Portuguesa (1947) e do livro Da Organização do Espaço (1962), o primeiro Prémio de Arquitectura da Fundação Calouste Gulbenkian, o galardoado com o Europa Nostra, o comendador da Ordem de Santiago de Espada era um coleccionador inveterado. Em sua casa, santos da Renascença, manuscritos originais de Pessoa e até o exemplar do Mein Kampf que Hitler ofereceu a Salazar e o ditador lusitano sublinhou.
De igual modo, defendendo que uma viagem vale várias aulas, correu o globo, num Citroën, através da Europa devastada pela guerra (viu a obra de Corbusier) ou numa volta ao mundo em parte financiada por bolsa da Gulbenkian (apreciou in loco a obra do recém-desaparecido Frank Lloyd). Deste "vício", que o levou do Peru ao Japão, resultou a série de desenhos de viagem em que tanto esquissa uma cidade espanhola em escassos traços como reproduz com imensos pormenores um monumento asiático.
E no momento em que amigos e admiradores prestam uma última homenagem na capela de família, em Fermentões, Guimarães, onde o corpo está desde ontem em câmara ardente - é trasladado amanhã, às 10.00, para o Porto, onde será cremado no cemitério do Prado do Repouso -, pode citar-se o que escreveu Jorge Figueira no catálogo das exposições Projectos e Desenhos de Viagem "Avisam-se, no entanto, os visitantes nestas exposições não está o melhor de Távora. Porque o melhor de Távora é ele próprio."
* Com Maria João Pinto
e Ricardo Fonseca