Prémio Pessoa - Eduardo Souto Moura
"Arquitecto é como o Pessoa"
ARQUITECTURA. «A atitude para fazer um galinheiro ou o metro do Porto é exactamente a mesma»
Com intervenções em edifícios fundamentais para 2001, Souto de Moura diz que a estratégia de Santos Silva é "inteligente"
Fátima Marques Faria
O vencedor do primeiro Prémio Pessoa atribuído a um arquitecto ficou "varado" quando recebeu a notícia.
Eduardo Souto de Moura, 12.º Prémio Pessoa. Uma surpresa?
Mais do que surpreendido, fiquei varado. Nunca pensei recebê-lo. Quando se fala num prémio de cultura associa-se logo a outras áreas como pintura e literatura. E, para ser sincero, dentro da arquitectura nunca pensei que fosse eu o escolhido.
Que significado tem para si receber o primeiro grande prémio de cultura atribuído a um arquitecto?
Muito. Primeiro, porque quer dizer que a arquitectura adquiriu um estatuto que não tinha. E porque me permite, a partir de agora, intervir nas áreas culturais de maneira diferente. Este prémio passa agora a ser um instrumento que sou obrigado e devo utilizar para reforçar as minhas posições.
Faltava um reconhecimento público da arquitectura portuguesa?
A arquitectura portuguesa tem sido reconhecida fundamentalmente lá fora. Cá é reconhecida, mas é maltratada. Neste momento ser arquitecto é uma profissão contra natura. Não há uma adesão com o cliente. Há uma certa dissonância e um discurso de alguma maneira incompatível.
Depois de divulgado o prémio, várias pessoas se manifestaram e comentaram a arquitectura de Souto de Moura. Como é que a define?
Não serei a pessoa mais indicada para o fazer. Nunca penso na minha obra. Faço o que acho que devo fazer. Em cada situação, quando as pessoas se predispõem a adjectivar, a querer transmitir e narrar, a primeira condição para que alguma coisa, no campo artístico, não aconteça é uma pessoa querer que aconteça. Há uma regra, que me foi ensinada pelas pessoas com quem trabalhei, que é a de que as coisas acontecem. A atitude para fazer um galinheiro ou o metro do Porto é exactamente a mesma. É um problema de discurso, de diversidade, e a postura tem de ser idêntica. Os projectos são feitos para resolver os problemas, sob o ponto de vista ético e estético, e essa é a minha função social e pessoal.
Alguns dos seus projectos - recuperação da Alfândega, o Centro de Fotografia e a Casa Manoel de Oliveira - vão ter um papel de relevo na Capital Europeia da Cultura. O Porto pode ganhar, em termos arquitectónicos, com o título para 2001?
O Porto pode ganhar porque a aposta é muito inteligente. O dr. Santos Silva estabeleceu uma estratégia, rodeando-se de consultores e de informações, e acho que está a fazer o que devia ser feito. Isto é, a cultura não é um acontecimento efémero em que há uma festa, uns concertos, lançam-se uns livros e por aí fora. Isto passa e depois ninguém fala no assunto. Portugal é um país pequeno e pobre e o objectivo não é realizar uma grande obra que vá custar milhões. Porque 2001 não deve nada à data, pode ser comemorado 2001 com eventos, obras e projectos que vão marcar um território. Isso é que é fazer cultura. E a aposta em recuperar zonas debilitadas está muito bem feita.
O arquitecto Troufa Real disse que Souto de Moura é "mais um dos poetas escondidos". Considera-se um poeta das formas?
Eu encaro a poesia não como um hobby, no sentido de comprar uns livros ou gostar de determinado poeta. A poesia, como dizia Jorge de Sena, é um acto de solidão, é uma postura, uma maneira de viver. Eu tento integrar a poesia na minha vida pessoal e na minha profissão.
Acaba de receber um prémio de oito mil contos, para, segundo disse, investir numa casa. Quem a vai projectar?
Eu. Vou ter de, mais uma vez, usar um heterónimo. Os arquitectos fazem todos os projectos para eles próprios e os clientes são os seus heterónimos. O arquitecto faz uma transmutação e coloca-se no lugar do cliente, mas a referência é sempre dele. Com as devidas distâncias, foi o que Pessoa fez. Partilhar os seus papéis e arranjar personalidades. Agora vou fazer o exercício significativo de ser o arquitecto e o cliente. Mas se tivesse de entregar a casa a alguém seria a uma pessoa que faz parte da cultura universal e de quem tenho a sorte de ser amigo pessoal: Álvaro Siza Vieira.
Um lugar cimeiro no mundo
O júri do Premio Pessoa instituído por Francisco Pinto Balsemão, Pedro Norton de Matos, Alexandre Pomar, António Alçada Baptista, António Barreto, Clara Ferreira Alves, João Fraústo da Silva, Maria de Sousa, Mário Soares, Miguel Veiga e Nuno Teotónio Pereira, salientou o lugar destacado de Eduardo Souto de Moura no panorama mundial, destacando entre as suas obras, a Casa das Artes, a Pousada do Bouro e a reformulação em curso da Alfândega do Porto. Sublinhou ainda a depuração da sua linguagem.